Pesquisas divulgadas em março pelo Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo (Ibevar) e pela FIA Business School mostram que as apostas se tornaram o principal fator associado ao endividamento familiar no Brasil, com um impacto quase duas vezes maior que o dos juros, que estão em níveis historicamente altos.
Impacto das Apostas nas Finanças
O estudo aponta que para cada aumento de 1% nas apostas, a dívida cresce 0,23%. Especialistas consultados afirmam que esse dado revela um novo risco de crédito que supera os fatores tradicionais do mercado.
Perfil dos Apostadores Brasileiros
Desde a legalização em 2019, o mercado de apostas no Brasil tem mostrado um crescimento significativo. Em 2025, as apostas online foram consolidadas como um fenômeno econômico de grande escala, com 26,4 bilhões de acessos a sites de apostas e receitas de R$ 50,9 bilhões, segundo dados da plataforma Legal Bet.
Esse crescimento posiciona o mercado de apostas como o segundo destino mais visitado da internet brasileira, apenas atrás do Google. “Não é um fenômeno de nicho; tornou-se uma cultura de massa, com um crescimento de interesse superior a dez vezes em quatro anos”, afirma Claudio Felisoni de Angelo, presidente do Ibevar e professor da FIA.
Comportamento dos Apostadores
Um estudo especial realizado pelo Banco Central a pedido do Senado, publicado em agosto de 2024, traçou o perfil dos apostadores brasileiros. A maior concentração está na faixa etária de 20 a 30 anos, com gastos médios de cerca de R$ 100 mensais. Entre os usuários com mais de 60 anos, o gasto médio ultrapassa R$ 3 mil por mês, o que pode comprometer a segurança financeira na aposentadoria.
Pesquisas nos EUA indicam que a persistência nas apostas leva a uma alavancagem financeira. Após a primeira aposta, a probabilidade de continuar apostando é alta, entre 50% e 60%.
Modelo Americano de Consumo de Apostas
A experiência americana serve como um alerta. Em 2018, a Suprema Corte dos EUA derrubou a proibição das apostas esportivas. O volume apostado saltou de US$ 1,1 bilhão por mês em 2019 para US$ 13,8 bilhões em 2025, um crescimento de 1.154%, segundo um estudo realizado por pesquisadores da Universidade de Wisconsin, da Universidade do Kansas e da Universidade Brigham Young.
O Brasil está replicando esse padrão em tempo real, com a mesma velocidade observada nos EUA, conforme apontam o Ibevar e a FIA Business School. O relatório técnico das duas instituições destaca que a legalização das apostas reduziu os depósitos nas corretoras americanas em cerca de 14%.
“Essa mudança é permanente, não temporária. Trata-se de uma mudança no comportamento financeiro das famílias”, disse Felisoni.
Impacto no Orçamento Familiar
Para o presidente do Ibevar, as apostas online não apenas competem por espaço no orçamento das famílias, mas também reduzem sistematicamente os depósitos em investimentos e aumentam a dependência de crédito para despesas correntes. “Elas resultam em um escoamento sistemático que exige o uso de crédito para despesas atuais”, afirmou Felisoni.
A conclusão do estudo é clara: o crescimento acelerado do mercado de apostas não é apenas uma questão regulatória ou tributária. É um fator macroeconômico com potencial para aumentar a vulnerabilidade financeira e pressionar o endividamento doméstico a médio e longo prazo.
Impacto sobre Beneficiários de Programas Sociais
O cenário mais crítico envolve os beneficiários do Bolsa Família. Segundo o estudo do Banco Central de agosto de 2024, 5 milhões de beneficiários apostaram, enviando R$ 2 bilhões para plataformas naquele mês – o equivalente a 1% do orçamento anual do programa (R$ 245 bilhões).
Ilusão Fiscal das Apostas
Apesar dessa drenagem financeira, o governo arrecadou R$ 8,82 bilhões com jogos e casas de apostas de janeiro a novembro de 2025, segundo a Receita Federal. No entanto, essa receita tributária pode ser uma ilusão fiscal.
Pesquisadores americanos alertam que os ganhos imediatos do estado tendem a ser parcialmente anulados pela redução de impostos sobre ganhos de investimento, uma vez que a migração de capital de contas de investimento para apostas reduz os depósitos nas corretoras, resultando em menos Imposto de Renda.
Paralelamente, há uma tendência de aumento dos custos públicos, com o estresse financeiro das famílias – saúde mental, programas de insolvência, assistência social – tendendo a crescer, anulando assim os ganhos tributários.
